Quando penso na alegria voraz com que comemos galinha ao molho pardo, dou-me conta de nossa truculência. Eu, que seria incapaz de matar uma galinha, tanto gosto delas vivas mexendo o pescoço feio e procurando minhocas. Deveríamos não comê-las e ao seu sangue? Nunca. Nós somos canibais, é preciso não esquecer. E respeitar a violência que temos. E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo, comeríamos gente com seu sangue.
Minha falta de coragem de matar uma galinha e no entanto comê-la morta me confunde, espanta-me, mas aceito. A nossa vida é truculenta: nasce-se com sangue e com sangue corta-se a união que é o cordão umbilical. E quantos morrem com sangue. É preciso acreditar no sangue como parte de nossa vida. A truculência. É amor também.
Quando chega a hora do abate propriamente dita, o gado é enfileirado em um curral e um funcionário começa a conduzir através de uma porta de aço os animais com o auxílio de uma vara de eletrochoque. Isto não é fácil, pois os animais ficam muito nervosos geralmente. Ao entrar no matadouro, o animal pode cheirar, ver o sangue e os pedaços em diversos estágios de corte, dos animais que o antecederam. Há verdadeiro pânico e ele tenta inutilmente fugir dando saltos, o que é inútil pois está totalmente cercado de chapas de aço. A inconsciência pré-abate é feito com uma pistola pneumática que dispara uma vareta metálica no crânio do animal, perfurando-o dolorosamente até o cérebro e desacordando-o para o passo seguinte. Este disparo, como o animal se agita muito, nem sempre é certeiro e, freqüentemente, atinge o olho ou resvala na cabeça do animal, gerando ainda mais dor. Em matadouros de pequeno porte o método é feito através de um martelo específico que golpeia a cabeça do gado quebrando o seu crânio (essa técnica também é usada em vitelas, pois os ossos do crânio de filhotes são mais macios). Nem sempre o martelo acerta com precisão a região que causa a inconsciência, podendo rasgar os olhos ou o nariz do gado.
9 comentários:
mto bem senhor artista!
comer e criticar.
me soa contraditório...
quem?
eu?
você?
todos nós!
a gula não é pecado e sim a descoberta de que o caos equilibra o ser
NOSSA TRUCULÊNCIA
Clarice Lispector
Quando penso na alegria voraz
com que comemos galinha ao molho pardo,
dou-me conta de nossa truculência.
Eu, que seria incapaz de matar uma galinha,
tanto gosto delas vivas
mexendo o pescoço feio
e procurando minhocas.
Deveríamos não comê-las e ao seu sangue?
Nunca.
Nós somos canibais,
é preciso não esquecer.
E respeitar a violência que temos.
E, quem sabe, não comêssemos a galinha ao molho pardo,
comeríamos gente com seu sangue.
Minha falta de coragem de matar uma galinha
e no entanto comê-la morta
me confunde, espanta-me,
mas aceito.
A nossa vida é truculenta:
nasce-se com sangue
e com sangue corta-se a união
que é o cordão umbilical.
E quantos morrem com sangue.
É preciso acreditar no sangue
como parte de nossa vida.
A truculência.
É amor também.
eu como carne...por isso sou feliz!
ditado islâmico!
E...E...E...
Eu não como carne!
Algum problema?
ADORO uma fraldinha!
o caos equilibra o ser...
vou levar essa frase comigo hoje!
Quando chega a hora do abate propriamente
dita, o gado é enfileirado em um curral e um
funcionário começa a conduzir através de uma
porta de aço os animais com o auxílio de uma
vara de eletrochoque. Isto não é fácil, pois
os animais ficam muito nervosos geralmente. Ao
entrar no matadouro, o animal pode cheirar,
ver o sangue e os pedaços em diversos estágios
de corte, dos animais que o antecederam. Há
verdadeiro pânico e ele tenta inutilmente
fugir dando saltos, o que é inútil pois está
totalmente cercado de chapas de aço.
A inconsciência pré-abate é feito com uma
pistola pneumática que dispara uma vareta
metálica no crânio do animal, perfurando-o
dolorosamente até o cérebro e desacordando-o
para o passo seguinte. Este disparo, como o
animal se agita muito, nem sempre é certeiro
e, freqüentemente, atinge o olho ou resvala na
cabeça do animal, gerando ainda mais dor. Em
matadouros de pequeno porte o método é feito
através de um martelo específico que golpeia a
cabeça do gado quebrando o seu crânio (essa
técnica também é usada em vitelas, pois os
ossos do crânio de filhotes são mais macios).
Nem sempre o martelo acerta com precisão a
região que causa a inconsciência, podendo
rasgar os olhos ou o nariz do gado.
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